Pequenas grandes verdades – Liane Moriarty

Em sua primeira continuação, Liane Moriarty volta a abordar as complexidades da vida das mulheres modernas, chamando a atenção, de forma inteligente e solidária, para a vergonha e os segredos de família. Independentemente de ter lido ou não “Pequenas grandes mentiras”, este livro é perfeito tanto para antigos fãs quanto para novos leitores. A última vez que vimos as mulheres de “Pequenas grandes mentiras” — Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie —, os filhos tinham cinco anos de
idade. Se alguém não fosse convidada para uma festa de aniversário de criança, ficava magoada. Mas dez anos se passaram, e os filhos já estão no ensino médio, com todo o drama que a adolescência envolve. Lá se foram os encontros para brincar. A questão agora é drogas, sexo e bebidas alcoólicas. Depois que o diretor da escola de ensino médio recebe pelo correio um dedo humano decepado, os pais estão em polvorosa. Mas Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie têm
outras coisas com que se preocupar. A sogra de Celeste, Mary Louise, está se comportando de maneira estranha. Será apenas esquecimento e franqueza decorrentes da idade avançada ou algo mais sórdido? Madeline está enfrentando talvez o maior desafio de sua vida. Jane está diante de uma encruzilhada perigosa em seu casamento. Bonnie percebeu que a yoga oferece apenas um consolo limitado. E Renata? Ela está vivendo sua melhor fase. A vingança é um prato que se come frio. Quando um homem estranho começa a rondar a escola, fazendo perguntas supostamente inocentes, esse grupo de mulheres, cujos laços são muito estreitos, precisa finalmente encarar todas as repercussões das pequenas grandes verdades que contaram — ou deixaram de contar — aos filhos. Porque, agora, o que está em jogo é muito mais sério do que simplesmente não ser convidado para um show de patinação no gelo. Na verdade, o gelo nunca esteve tão fino para
ninguém.

Trecho:

 

A Sra. Lottie Wang, funcionária administrativa e assistente do diretor da escola de ensino médio Pirriwee High, estava sentada na recepção, organizando a correspondência.

Ela abriu um envelope amarelo grande, endereçado com caneta preta ao diretor da escola, Dr. Ferdinand Seawright. Ela podia ouvi-lo falando sozinho na sala ao lado diante do
computador, que, ao que parece, não se enquadrava na categoria de “tecnologia”.

Era o primeiro ano do Dr. Seawright na escola, e Lottie ainda não tinha se acostumado ao hábito dele falar em voz alta enquanto digitava, como se estivesse ditando as palavras para si mesmo.

“Mais uma vez… minha paciência… está se esgotando”, disse ele.

A minha também, pensou ela.

“Os pais devem… estar cientes… de que esse comportamento não é tolerado… é proibido pelo Código de Conduta da Pirriwee High School”, acrescentou ele.

Lottie suspirou.

O envelope amarelo continha uma embalagem de isopor branca, um pouco menor do que uma caixa de celular. Ela usou a ponta da tesoura para romper a fita adesiva que mantinha as duas metades encaixadas e as separou.

“Que nojo!”, exclamou recuando.

Uma réplica de dedo masculino, que parecia real, com alguns pelos pretos e uma unha bem aparada, estava acomodada no fundo retangular recortado na parte inferior da caixa. Que desnecessário,
desagradável e prejudicial ao meio ambiente! As coisas que as empresas fazem para chamar a atenção com ações de marketing direto!

Ela procurou a carta que costuma acompanhar, onde esperava encontrar algo “inteligente”, como: Aponte uma direção diferente aos seus alunos.

Anna Kennard, responsável pela disciplina de Ciências, surgiu na mesa de Lottie. “Desculpe ficar incomodando, Lottie, mas preciso mesmo saber sobre a escala para…” Ela parou. “O que é isso que você tem aí?”

Lottie sorriu. “Ah, é só uma ação promocional. Até parece de verdade, não é?”

“Posso ver?”

Lottie entregou a parte inferior da caixa. Anna virou-a de cabeça para baixo, e o dedo caiu.

Estava envolto em filme plástico bem apertado e selado, como um sanduíche preparado para levar à escola.

Anna soltou com cuidado e desenrolou o filme plástico. Deu uma leve sacudida. O dedo rolou lentamente para o lado.

Pegou uma caneta do porta-lápis da recepção com a inscrição “Canetas limpas”. Segurou a caneta com a tampa voltada para baixo, como se fosse um bisturi, e cutucou o dedo com cuidado.

O dedo era macio, manchado com respingos de sangue seco abaixo da articulação.

“É um dedo humano”, declarou Anna, e puxou a blusa para cobrir o nariz. “Tem cheiro.”

“Não.” Lottie empurrou a cadeira para trás, afastando-a da mesa. “Não pode ser.”

“Sem dúvida nenhuma”, disse Anna. “É um dedo de verdade.”

Lottie deu um grito e se levantou, sentindo uma vertigem. “Estou passando mal.” Tinha pressão baixa.

“Sente-se”, disse Anna, de forma sensata.

“O que está acontecendo?”, perguntou o Dr. Seawright, saindo de sua sala bem a tempo de segurar Lottie pelas axilas. Anna correu para o outro lado da mesa e eles deitaram a assistente no chão com cuidado. O Dr. Seawright desviou o olhar enquanto Anna puxava a saia de Lottie para cobrir os joelhos.

Ao ouvir uma tosse discreta, eles ergueram a cabeça e viram um jovem de quinze anos, com barba rala, segurando um cartão vermelho de controle de comportamento.

“Volte mais tarde, Ruben”, ordenou o Dr. Seawright. “A Sra. Wang não está passando bem.”

Ele supôs que a expressão abobalhada no rosto de Ruben estivesse relacionada ao fato do garoto ter visto os joelhos da Sra. Wang. Anna Kennard não sabia que Ruben a vira cutucando o dedo humano e, portanto, não lhe pediu discrição. Embora, de qualquer forma, ele não teria mantido segredo. Era um garoto sociável. Seu pai era um renomado radialista de uma emissora pública; por isso, Ruben sabia como transmitir notícias de última hora sem sensacionalismo ou floreios.

Nem precisava.

Em menos de uma hora, toda a comunidade escolar já sabia que alguém tinha enviado um dedo decepado ao diretor.

Qualquer dúvida sobre a veracidade da história de Ruben desapareceu quando uma viatura policial foi vista entrando na área de estacionamento para visitantes.

Em toda a Península de Pirriwee, os celulares vibravam de forma frenética com o som constante das notificações do grupo de WhatsApp dos pais. Eram pais atenciosos, participativos e muito presentes. Muitos poderiam ter matriculado os filhos em escolas de ensino médio particulares, mas optaram por não fazer isso por razões ideológicas louváveis. Por isso, sentiam-se no direito a um tratamento VIP, já que deixaram de gastar um dinheiro que poderiam ter desembolsado com facilidade. Pediam apenas transparência. Se um dedo decepado fosse enviado à escola, deveriam ser informados sem demora.

Os filhos, por sua vez, estavam eufóricos com a interrupção macabra na rotina, embora alguns tenham sentido náusea. Já os jovens do teatro,que vivenciavam as emoções com grande
intensidade, choraram e desmaiaram, ou fizeram o possível para desmaiar.

Foi um dos momentos da infância a ser lembrado por todos os alunos: o ensolarado dia de primavera em que alguém mostrou o dedo para o diretor da escola.


 https://cheirodelivronovo.com.br/wp-content/uploads/2026/10/Big-Little-Truths-Liane-Moriarty.pptx


Andréa Acquaviva

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo