Sempre Dolly – Annabel Monaghan

Dolly Brick nunca encontrou um problema que não conseguisse resolver. Nem aos doze anos, quando a mãe foi embora, nem aos trinta e nove, quando volta com o filho para Whitfield, Rhode
Island, para passar o verão e impedir que o pai e o irmão percam a casa da família.

Ajudar é tão natural para Dolly. E é o que ela faz ao encontrar Stewart, o bonito e irritante herdeiro da família Whitfield, com um pneu furado e tendo que enfrentar o desagradável desfecho do término
humilhante de um relacionamento em público. O acordo proposto por Stewart acaba sendo muito mais do que qualquer um dos dois imaginava; pois à medida que jantares e eventos beneficentes da alta sociedade dão lugar a passeios ao pôr do sol e a beijos que a fazem estremecer, Dolly começa a sentir algo que vai além de uma simples disposição em ajudar. Ela nunca dependeu de ninguém, além de si mesma. Será que realmente conseguirá começar agora?

Se começam fingindo, será que podem terminar com algo real?

 

Trecho:

 

Guardo a nota de dez dólares no bolso da frente do meu short, sempre mais seguro do que o de trás, e sigo de bicicleta pelo longo caminho. Diminuo a velocidade ao passar pela capela de tábuas brancas com uma torre imaculada apontando para o céu, como se os Whitfield tivessem uma linha direta com o alto. Na verdade, isso explicaria muita coisa. Quando éramos crianças, Patsy e eu a chamávamos de capela da princesa. Imaginamos uma princesa com uma tiara brilhante e um homem gentil (levamos isso ao pé da letra e pronunciamos cada palavra: o homem seria gentil,
como o nosso pai) ajudando-a a montar com seu vestido enorme em um cavalo branco. Que poderá ser dela. Sempre incluíamos essa cláusula porque estávamos mais interessadas em ela ficar com o cavalo do que no homem de modos gentis. Eu deveria ligar para a Patsy sobre o incêndio, mas não liguei porque não estou a fim de entrar naquela nossa dança de ressentimentos, quando finjo que está tudo bem, que tenho muita sorte de estar em casa. E tenho mesmo; eu adoro este lugar. Mas ainda acho que não custaria nada ela revezar comigo como contato de emergência.

Pedalo de volta para a cidade, e as ruas arborizadas estão silenciosas. Não há entrega de correspondência. Nenhum caminhão da UPS. O cansaço do dia começa a bater e um sono me pega de surpresa quando vejo um Range Rover preto novinho em folha parar na contramão, a uns
vinte metros à frente. Continuo pedalando na direção dele, e Steward Whitfield sai do carro. Eu sei que é ele antes de ver o rosto. Pelo modo como ele está em pé. Alto, com ombros largos e imponentes. Como se ele tivesse um ponto de observação mais elevado que o meu, de onde ele pode contemplar a vasta extensão de tudo o que possui. Minha melhor amiga, Naomi, fã fervorosa do Whitfield, vai surtar. Stewart é geralmente considerado o mais bonito dos Whitfields e é, com
certeza, o mais poderoso, na qualidade de herdeiro do cargo de CEO das Indústrias Whitfield. Ao contrário do irmão playboy e da irmã socialite, ele raramente é visto por aqui. Ele tem mais ou menos a minha idade, e eu costumava vê-lo às vezes durante os verões, quando eu era jovem. Ele aparecia na peixaria (bolinhos de caranguejo, molho tártaro extra, nada de garfo de plástico,
obrigado) ou eu o via quando eu estava indo trabalhar no iate clube. Steward Whitfield sempre ganha — barcos, cavalos, Yale —, mas, vale destacar, eu o eliminei na Liga Infantil de verão quando tinha onze anos. Se você é da cidade, vai se lembrar de ter eliminado um Whitfield.

Não diminuo ao passar, mas ele me chama: “Com licença!”

Paro a bicicleta e viro apenas a cabeça. Seu cabelo castanho-escuro tem um corte preciso. Está mais curto do que na foto de noivado que estampou a capa do The Boston Globe em fevereiro e foi republicada três semanas seguidas no The Whitfield Gazette. Ele está vestindo um blazer azul, uma camisa branca e ostentando o bronzeado de quem não tem três empregos. Só a ideia dele me irrita. Desço da bicicleta com um sorriso forçado e puxo para baixo meu short jeans, que havia subido.

“Será que você teria um carregador de celular para carro?”, diz ele.

“Estou de bicicleta”, digo.

“Sim. Estou vendo. Eu só esperava que você pudesse…” Ele levanta o celular descarregado e faz um gesto com a cabeça em direção ao carro, atrás dele. As linhas perfeitas e elegantes fazem o Range Rover brilhar como se tivesse sido polido pelas barrigas macias de filhotes de gato. O pneu dianteiro esquerdo está furado.

“Seu pneu”, digo.

“É. Acabou de acontecer, e eu comecei a ligar para o meu assistente quando a bateria do meu celular acabou. Foi um dia daqueles no trabalho”. Ele levanta o celular, como se eu pudesse
perceber, só de olhar, o quanto ele trabalhou. “Em todos os aspectos, na verdade”. Ele olha para o lado como se tentasse lembrar por que está ali parado ou talvez para me dar a chance de admirar seu perfil de tirar o fôlego: a linha reta do queixo, a ligeira protuberância no nariz, que torna seu rosto
perfeitamente simétrico mais masculino. A gente entende, Stewart. Você tem tudo.

“Você quer usar o meu celular?”, pergunto. Não vou nem me dar ao trabalho de perguntar se ele sabe trocar um pneu.

“Sim, obrigado”, ele diz, mas seus olhos escuros não amolecem com nenhuma forma real de gratidão. Ele pega meu celular e, então, solta um suspiro frustrado. “Eu não sei o número dele”.

“De quem?”

“Do meu assessor, Damion”.

“Eu também não sei”, digo e dou de ombros. “Você quer ajuda com o pneu?”

“Ajuda sua?”

“Sim, minha. Eu sou a Dolly”, me apresento.

Ele estende a mão. “Sou Stewart.” É um tremendo aperto de mão.

“Eu sei”, respondo. “Você realmente deveria aprender a trocar um pneu, Steward”. Com certeza, ele não me reconhece. Ele desvia o olhar novamente. “É mesmo. Estou acertando todas, hoje”, ele diz.

“Acabei de entregar seu camarão”. Faço um gesto apontando a longa rua arborizada, na direção de onde vim. Isso não lhe traz à memória as centenas de bolinhos de caranguejo que lhe vendi ao
longo dos anos.

“Obrigado”, ele fala.

“Vamos só…”, eu começo. “Vamos lá”. Sou uma pessoa sempre à disposição. Da minha família, de um monte de pequenas mentes curiosas durante o ano letivo. Dos donos de coletes com peso e dos
passageiros de Uber nas noites de sábado. Mas trocar o pneu de Stewart Whitfield a menos de 2 quilômetros da casa dele, porque o celular dele descarregou e ele não consegue falar com os empregados, deve ser o auge absoluto da humilhação.

Levo minha bicicleta para o acostamento e vou até a traseira do carro, onde ele abre o porta-malas. Há um cobertor azul-marinho, dobrado por alguém das forças armadas, e nem sequer um grão de poeira.


Andréa Acquaviva

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