Obediência – Ariel Sullivan

No primeiro volume desta impressionante trilogia de distopia: em um futuro distante, uma jovem se vê dividida entre dois amores e dois lados de uma rebelião que está se formando sob a superfície. Séculos após uma guerra mundial catastrófica ter quase dizimado a população humana, uma cidade se ergueu das cinzas, governada por um grupo inatingível e tecnologicamente avançado chamado Ilumini. Aos vinte e sete anos, Emeline vive em um limbo, desperdiçando seus dias em um emprego
classificando arte humana antiga para destruição e aguardando ser selecionada como par para um contrato de procriação. Enquanto outras garotas esperam ansiosas para serem escolhidas, Emeline nunca sentiu se encaixar em uma sociedade onde o valor de uma pessoa é determinado por fatores constantemente monitorados, como genes, saúde e capacidade de procriar. Ela tem se esforçado
para manter esse desconforto em segredo, mas, quando é finalmente escolhida, seu par se revela um membro dos Ilumini chamado Collin, um rapaz que parece guardar seus próprios segredos. É a primeira vez em décadas que um llumini escolhe um par, deixando Emeline e outras pessoas intrigadas por ela ter sido escolhida. Em pouco tempo, ela está inserida no perigoso jogo de cortejo, com vestidos de gala, jantares suntuosos e olhares vigilantes, onde um único passo em falso pode significar a eliminação. Embora partes desse estilo de vida da elite sejam atraentes, quanto mais ela se envolve, mais percebe o lado sombrio e a formação de uma rebelião em segredo. Collin é confuso — frio e, ao mesmo tempo, protetor — e, pior, ela se vê atraída justamente pela última pessoa por quem deveria se apaixonar: Hal, um dos líderes da resistência. À medida que se aproxima tanto
de Collin quanto de Hal, os Ilumini exercem seu poder de maneiras cada vez mais brutais, forçando Emeline a questionar, acima de tudo, se terá de entregar seu coração e até mesmo sua vida para detê-los.

 Trecho:

NÚMERO DE IDENTIFICAÇÃO: F13463233

IDADE: 27

GÊNERO: feminino

PESO: 58,2 kg

ALTURA: 1,76 m

DEFEITO GENÉTICO: menor, hereditário

STATUS DE PROCRIAÇÃO: aprovada

 

Um holograma preencheu o centro da minha sala de trabalho com uma pintura. Simples, pequena. Só uma mulher, com um leve sorriso no rosto.

Como de costume, eu estava sozinha na seção de Arte Antiga dos Arquivos, enterrados nas profundezas do subsolo. Meu trabalho era destruir, pedaço por pedaço, os vestígios do mundo que os humanos antigos haviam devastado na Última Guerra. Em outra parte dos Arquivos, minha
amiga Lo estava sentado na seção de Livros, e havia outras pessoas que organizavam ferramentas antigas, documentos e relíquias de antes da guerra. Nossas telas ditavam o que era salvo, realocado ou — como esta — destruído.

O título na tela dizia Mona Lisa. Os olhos dela me cativaram, como se ela guardasse um segredo. Eu não conseguia desviar o olhar. O sorriso dela, com mais de mil anos, provocava minha curiosidade. Por um momento, abafou a palavra que me assombra desde aquela manhã. Aprovada.

Eu era uma das muitas mulheres de cinza que haviam treinado para isso, aguardando até que nossa fertilidade fosse considerada ideal e fôssemos pareadas com um homem da Elite, para cumprir nosso papel em prol do Bem Maior. Pensamentos, esperanças, desejos. Eram desnecessários. Uma distração. Os Ilumini, que governam a cidade, fornecem aos Defeitos Menores — inclusive eu — tudo de que precisávamos. O que restava para pensar?

Desviei os olhos da projeção holográfica, cujo brilho iluminava minha sala de trabalho escura e meus desejos tolos. Eu poderia, finalmente, ser escolhida por um homem da Elite para um Acordo de Procriação — frequentar os bailes e entrar nos imponentes edifícios nas nuvens. Eu veria a vida secreta deles lá em cima. Fazer parte dela. Pelo menos enquanto me deixarem. Enquanto eu era útil.

Durante anos, sozinha nesta sala de trabalho, pensei em um Acordo de Procriação, imaginando se a beleza que os antigos humanos capturaram nas pinceladas ainda existia Lá em Cima. À noite, na
cama, eu fantasiava, enquanto meu propósito era incutido em mim todos os dias. Um momento em um vestido delicado. Um homem gentil da Elite, girando comigo na pista de dança até que eu estivesse livre dos horrores dos últimos vinte e sete anos.

Ele dançaria comigo como se eu fosse especial, sussurraria meu nome no meu ouvido: Emeline. Espantando as palavras de inadequação que me acompanharam a vida inteira. Ele me envolvia em seus braços e aproximaria nossos rostos… até que nossos olhares se cruzassem, e ele me julgasse indigna, como todos da Elite haviam feito.

O eterno zumbido da luminária, acima, misturava-se às palavras que eu nunca consegui superar.

Essa menina estragou tudo.

Ela deveria estar de azul.

Não me importo com o que você fará com ela.

Tire-a da minha frente.

A mulher sorridente me manteve firme, seu poder infiltrando-se na sala. Meus pensamentos em espiral silenciaram diante de sua beleza reservada, como se ela pudesse enxergar até o
meu âmago — todos os meus segredos, expostos.

Eu apertei excluir. O sorriso dela permaneceu comigo conforme ela desapareceu.
Minha sala voltou a ser um necrotério, desprovido de cor, de luz, de escolha.
Um lugar de destruição. Quatro paredes brancas, uma mesa de metal, telas que ocultavam a porta e uma única luz pendente.

A cidade possuía uma tecnologia notável. Muitas vezes me pergunto por que os Ilumini nos fazem realizar tarefas que a tecnologia deles poderia executar facilmente. Por que eles nos permitiram
ver o que veio antes. Era como se a separação dessas relíquias nos mostrasse a facilidade com que eles estavam dispostos a descartar as coisas nas quais não viam valor. Lembrando a todas as mulheres em idade reprodutiva o que nos aguardaria se falhássemos com o Bem Maior.

 

https://cheirodelivronovo.com.br/wp-content/uploads/2026/05/Description-Conform.jpg

https://cheirodelivronovo.com.br/wp-content/uploads/2026/05/Trecho-Conform.pptx

 

Andréa Acquaviva

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo